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‘NINGUÉM DESRESPEITA NOSSA SENHORA’: TEMORES SOBRE A PADROEIRA DO BRASIL TOMAM CONTA DO PAÍS ÀS VÉSPERAS DA ELEIÇÃO

‘NINGUÉM DESRESPEITA NOSSA SENHORA’: TEMORES SOBRE A PADROEIRA DO BRASIL TOMAM CONTA DO PAÍS ÀS VÉSPERAS DA ELEIÇÃO

Por Tom Phillips, do Guardian, no Rio de Janeiro — sexta-feira, 2 de outubro de 2026, 5h00 BST

A ameaça de Flávio Bolsonaro de retirar Nossa Senhora Aparecida de sua posição de padroeira do Brasil pode se tornar um fator decisivo na reta final antes do domingo. Uma verdadeira disputa de proporções bíblicas tomou conta do Brasil às vésperas da eleição presidencial, com a padroeira do país, Nossa Senhora Aparecida, surgindo como uma improvável “fiel da balança” em uma disputa acirrada.

Às vésperas da votação de domingo, os dois principais candidatos — o presidente de esquerda, Luiz Inácio Lula da Silva, e seu adversário de direita, Flávio Bolsonaro — aparecem empatados nas pesquisas.

Mas, nos últimos dias, especulações de que Bolsonaro — filho do ex-presidente Jair Bolsonaro — poderia retirar Nossa Senhora Aparecida de sua condição de padroeira provocaram uma onda de indignação em todo o país, levando alguns a questionar se o episódio poderia favorecer Lula, que é católico.

“Isso poderia influenciar as coisas para um lado ou para o outro”, afirmou Thomas Traumann, analista político que acompanha a inusitada controvérsia eleitoral.

Ainda não está claro exatamente como a polêmica começou, mas o debate explodiu na semana passada depois que uma declaração de Bolsonaro, cujo movimento conta com forte apoio de cristãos evangélicos, viralizou nas redes sociais.

Em uma transmissão recente, o ex-senador afirmou que um de seus primeiros atos como presidente seria “decretar que o Brasil pertence ao Senhor Jesus Cristo”.

Alguns católicos interpretaram a declaração como um sinal de que o político protestante pretendia retirar Nossa Senhora Aparecida de sua posição. No entanto, somente o Vaticano — que declarou Nossa Senhora Aparecida padroeira do Brasil em 1930 — teria autoridade para fazer tal alteração.

As suspeitas foram reforçadas pelos supostos vínculos de Bolsonaro com JB Carvalho, líder evangélico que anteriormente havia defendido a retirada da padroeira. Em 2007, outro aliado de Bolsonaro tentou apresentar um projeto de lei com o mesmo objetivo, mas a proposta acabou abandonada.

Bolsonaro classificou como “fake news” as alegações de que pretende retirar Nossa Senhora Aparecida da condição de padroeira. Ele afirmou que os rumores estavam sendo espalhados por apoiadores de Lula, assim como por integrantes da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), organização que reúne os bispos católicos do país. A entidade rejeitou a acusação.

O movimento de esquerda de Lula aproveitou a controvérsia, consciente de que ela poderia prejudicar o candidato de direita em um país onde quase 57% da população é católica.

Com o resultado esperado ainda mais apertado do que na eleição anterior — quando Lula derrotou Jair Bolsonaro por menos de 2% dos votos — mesmo uma pequena quantidade de votos poderá representar a diferença entre vitória e derrota.

Lula apareceu em eventos de campanha segurando pequenas imagens da Virgem Maria, enquanto sua esposa, Janja da Silva, usou um pingente em homenagem a Nossa Senhora Aparecida.

“Enquanto eu for presidente, ninguém vai desrespeitar Nossa Senhora Aparecida. Ninguém. As pessoas precisam aprender a respeitar todas as religiões”, disse Lula durante um comício na Amazônia.

O vice-presidente e candidato a vice na chapa, o católico devoto Geraldo Alckmin, publicou um vídeo relatando ter recebido mensagens de católicos “preocupados com os rumos do país e com as notícias terríveis que estão circulando”.

Alckmin assegurou aos eleitores que ele e Lula preservariam e protegeriam “as tradições religiosas, tão sagradas para as famílias brasileiras”.

A controvérsia expõe a rivalidade e as tensões entre a Igreja Católica brasileira, que durante muito tempo foi dominante no país, e o movimento evangélico, que cresceu rapidamente desde os anos 1980.

Traumann afirmou:

“Isso tocou em um ponto muito sensível, que é o crescente poder dos evangélicos. Os evangélicos representam cerca de 30% da população, mas seu poder político é muito maior do que 30% — e dentro do bolsonarismo essa influência é ainda mais significativa.”

Traumann acredita que, independentemente de Bolsonaro realmente ter a intenção de retirar a padroeira, a controvérsia atingiu “um medo genuíno entre os católicos de serem colocados para fora do sistema”.

“Não tenho nenhuma dúvida de que isso será importante na eleição. Flávio Bolsonaro sabe que isso repercutiu mal”, acrescentou.

Luiz Antônio Simas, historiador e autor do livro Tantas Marias: Nossa Senhora na Cultura Popular, afirmou que a reação foi “um sintoma da popularidade que Aparecida e a Virgem Maria, de maneira geral, têm na formação da nossa cultura”.

“Para a cultura popular brasileira, Nossa Senhora Aparecida transcende os altares... Ela é extremamente poderosa como elemento definidor daquilo que imaginamos que seja a cultura popular brasileira”, afirmou Simas, destacando a presença da “Madona Negra” brasileira nos desfiles de samba, na cultura do futebol e também nas religiões de matriz africana.

Embora o debate tenha ganhado força na véspera da eleição, Simas afirmou que Nossa Senhora Aparecida é há muito tempo um ponto de tensão entre católicos e evangélicos, que se opõem à veneração católica de santos e imagens.

Ele lembrou o grande escândalo ocorrido em 1995, quando um pastor neopentecostal chutou uma imagem de Nossa Senhora Aparecida durante um programa de televisão.

Para Simas, o racismo religioso estava no centro daquela reação, considerando que Nossa Senhora Aparecida é uma representação negra da Virgem Maria.

“Quando tudo isso entra em contato com um contexto político turbulento, em um país que vive as tensões de um cenário eleitoral altamente disputado, todas essas controvérsias vêm à tona”, acrescentou Simas.