DISPUTA SOBRE SUPOSTO FAVORECIMENTO DE BOLSONARO PELA META SE INTENSIFICA .
By Guardian-AI Chat-Tiago Rogero-Human Synthesis-21 October 2026
Aliados de Lula suspeitam de interferência da empresa de tecnologia em favor do presidente dos EUA, Donald Trump, que mantém laços estreitos com a família Bolsonaro.

Cinco dias após sua derrota no primeiro turno das eleições presidenciais brasileiras, o presidente de esquerda Luiz Inácio Lula da Silva passou quase 24 horas sem conseguir impulsionar suas publicações no Instagram, enquanto seu adversário, o senador de extrema direita Flávio Bolsonaro, conseguia fazê-lo.
Os advogados de Lula incluíram o episódio em uma lista de incidentes apresentada à Justiça Eleitoral e a observadores internacionais como “evidências” de que a Meta, proprietária do Instagram, estaria tentando interferir nas eleições brasileiras em favor de Bolsonaro.
Relatos de apoiadores de Lula que afirmavam ter tido conteúdos removidos ou seu alcance reduzido inundaram as redes sociais no Brasil, enquanto cerca de uma dúzia de organizações de monitoramento e grupos de pesquisa publicaram relatórios descrevendo o que chamaram de “indícios” de que a Meta poderia estar favorecendo a campanha do senador.
A Meta classificou as acusações de Lula como “falsas e infundadas”, afirmando que ocorreram “incidentes técnicos” que afetaram campanhas de “diferentes espectros políticos”.
A controvérsia intensificou a disputa eleitoral entre Lula e Bolsonaro poucos dias antes do segundo turno, marcado para o próximo domingo, e ganhou ainda mais repercussão depois que a Justiça Eleitoral determinou que a Meta não poderia oferecer “tratamento desigual” aos candidatos.
Justiça Eleitoral exige explicações da Meta
No final da semana passada, o ministro Marco Aurélio Bellizze afirmou não ter encontrado evidências de uma ação deliberada da empresa, o que exigiria uma investigação mais aprofundada. Ainda assim, deu à Meta 24 horas para comprovar que os problemas que afetavam Lula haviam sido resolvidos e que não voltariam a ocorrer.
Na segunda-feira, depois de afirmar que a empresa não havia cumprido a determinação, Bellizze concedeu à Meta mais 24 horas. A empresa respondeu na terça-feira, negando novamente qualquer favorecimento e informando que havia implementado uma revisão humana para impedir restrições automatizadas.
O conselho de supervisão da Meta, um órgão semiautônomo cujas decisões são vinculantes, divulgou uma declaração afirmando estar “preocupado com as repetidas falhas na aplicação das medidas de integridade eleitoral da Meta”.
O órgão citou tanto as eleições brasileiras quanto a suspensão da conta do movimento americano anti-Trump No Kings por várias horas no último sábado, durante manifestações destinadas a incentivar o voto antecipado nas eleições de meio de mandato dos Estados Unidos.
A empresa afirmou ter suspendido a conta do No Kings depois que seus sistemas antifraude identificaram erroneamente o tráfego como atividade de robôs, ou bots, e pediu desculpas pelo ocorrido.
O conselho afirmou ter observado o mesmo padrão no Brasil, onde houve uma “aplicação excessiva das políticas antifraude da Meta contra as contas de anúncios do presidente Luiz Inácio Lula da Silva”, em 23 de setembro. Na ocasião, a conta de publicidade da campanha foi desativada por mais de uma hora.
A Meta declarou que isso aconteceu “por engano [...] e não por motivos políticos”, depois que uma análise antifraude classificou incorretamente um anúncio como uma tentativa de se passar por um programa social do governo.
O conselho afirmou:
“Desde a remoção de contas de ativistas políticos durante protestos nos Estados Unidos, às vésperas das eleições de meio de mandato, até as restrições técnicas que atingiram as contas de um candidato à Presidência no Brasil e deram origem a acusações de interferência eleitoral, está claro que a Meta precisa fazer mais para garantir que suas práticas de aplicação de regras durante as eleições sejam transparentes e consistentes, e que a liberdade de expressão política seja protegida, em vez de sufocada.”
João Victor Archegas, coordenador do Instituto de Tecnologia e Sociedade, um centro de estudos, afirmou ser “quase impossível” comprovar qualquer interferência da Meta nas eleições brasileiras, pois somente a empresa tem acesso aos seus dados internos. Isso significa que não existe uma fiscalização externa efetiva, nem por parte da Justiça Eleitoral nem das organizações que produzem relatórios sobre o assunto.
“O que temos até agora é um conjunto de casos que talvez um dia possamos reunir e, assim, chegar a alguma conclusão, em um sentido ou em outro. Mas hoje, devido à falta de informações, infelizmente não podemos ter certeza”, afirmou.
Plataformas como Google e TikTok não estão permitindo anúncios políticos nesta eleição, o que deixa os serviços da Meta como os únicos canais de grande escala para campanhas digitais pagas. Até agora, essa atividade rendeu à empresa £ 43 milhões, 85% a mais do que ela arrecadou durante a última eleição presidencial.
Relatos de restrições e suspeitas de censura
Um relatório da organização de monitoramento CTRL+Z, fundada por um ex-executivo do WhatsApp, que pertence à Meta, reuniu 1.121 denúncias de perda ou redução de alcance, restrições ao compartilhamento de publicações e suspensões e bloqueios de contas que afetaram principalmente perfis de esquerda.
A Meta rejeitou o relatório, classificando-o como uma compilação de relatos pessoais e percepções dos usuários.
Veículos de comunicação também divulgaram exemplos de um experimento no qual o assistente de inteligência artificial do WhatsApp se recusou a criar imagens com o nome “Lula” e seu número de candidato, mas aceitou produzir imagens com “Flávio”.
Os brasileiros costumam se referir ao senador pelo primeiro nome, reservando o sobrenome Bolsonaro para seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.
A empresa afirmou que o caso refletia “uma falha específica nas proteções do sistema, e não um viés político”. Segundo a Meta, era possível gerar imagens usando o primeiro nome de Lula, Luiz, acompanhado de seu número eleitoral.
Como Trump estaria interferindo nas eleições brasileiras — explicação
Muitos apoiadores de Lula levantaram suspeitas de que a Meta estaria agindo em nome do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que mantém relações estreitas com a família Bolsonaro e que, segundo acusações do próprio Lula, estaria tentando interferir nas eleições brasileiras.
Os advogados de Lula pareceram adotar esse argumento em sua representação à Justiça Eleitoral, descrevendo a Meta como uma “empresa estrangeira alinhada ao governo Trump” que estaria atuando como um “vetor de pressão externa sobre o eleitorado [brasileiro]”.
No entanto, eles não apresentaram evidências de um possível envolvimento dos Estados Unidos.
No episódio de 9 de outubro, quando a campanha de Lula ficou temporariamente impossibilitada de impulsionar publicações no Instagram — plataforma que 70% dos adultos brasileiros dizem utilizar como principal fonte de informação —, os advogados do presidente afirmaram que “silenciar” as redes sociais do atual chefe do Executivo enquanto as do adversário continuavam funcionando normalmente criava uma vantagem injusta para Bolsonaro.
A empresa afirmou que o problema afetou apenas as novas publicações, enquanto as mais antigas ainda podiam ser promovidas. Segundo a Meta, tratou-se de uma “indisponibilidade global” que afetou “milhares de anunciantes em diferentes países”, embora a campanha de Bolsonaro não estivesse entre os afetados.
A Meta acrescentou:
“Aplicamos as mesmas regras a todos os candidatos, partidos e correntes políticas no Brasil, assim como fazemos nas eleições ao redor do mundo. Não suprimimos conteúdos para prejudicar um lado nem concedemos tratamento preferencial a qualquer lado.”
Anúncios eleitorais veiculados do exterior levantam novas preocupações
Um laboratório de pesquisa sobre internet e redes sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro, o NetLab, produziu um relatório mostrando que a Meta permitiu que pelo menos 1.600 anúncios eleitorais fossem impulsionados a partir do exterior, uma prática proibida pela legislação brasileira.
Débora Salles, coordenadora-geral do NetLab, afirmou que a equipe não havia identificado viés político em favor de nenhum dos lados. No entanto, segundo ela, a falha “demonstra como a empresa repetidamente deixa de garantir a segurança e o cumprimento da legislação eleitoral”.
Na véspera da votação, o NetLab identificou anúncios pagos que se passavam por publicações oficiais da Justiça Eleitoral e continham informações falsas destinadas a incentivar a abstenção. As mensagens afirmavam que, em caso de chuva, os eleitores poderiam votar pela internet, o que não é possível no Brasil.
“Independentemente de uma candidatura estar sendo beneficiada ou prejudicada, o que vemos é que a empresa tem dificuldade para cumprir a legislação eleitoral brasileira e acaba comprometendo a integridade do processo eleitoral.”
